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quarta-feira, 12 de maio de 2010


Eu adoro esses dias em que ele chega assim tão frágil porque o olho dele brilha ainda mais azul. E aí vai contando tudo que ta perturbando, esse monte de coisas que chegaram sem avisar, umas atropelando as outras, e o sorriso dele vira coisa rara e por isso fica mais bonito ainda. E ele vai falando tudo sem parar enquanto fuma. 

Gente, eu ando suspirando tanto e tão sem propósito, que se vocês soubessem...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

descompasso

“Sei que as coisas têm o ritmo que elas têm, e não o que a gente consegue dar. É claro que me soltei, me deixei levar pelo que você dizia, pelas promessas escondidas que fazia, pelo silêncio que a gente compartilhava e pela voz de sono ao telefone.
Sei que eu poderia ter sido mais racional, como fui a vida inteira, mas acontece que, de verdade, eu não acreditava em nada do que tava acontecendo, não levava suas promessas a sério, e aproveitava os silêncios para criar minhas próprias melodias.
O fato é que apesar de tudo que a gente têm passado, eu continuo seguindo o meu ritmo diferente do ritmo que as coisas têm. E mesmo que você alegre os meus dias, isso tudo é sobre mim e não sobre você. Eu estou o tempo todo mergulhado no meu tempo.
Essa é a coisa mais egoísta que eu já te disse, mas são as coisas que você proporciona e não você própria, o que me faz cantar. Enquanto eu descubro as notas, estaremos felizes. Só não sei quanto tempo a música leva até ficar monótona.”

Já fazia algum tempo que ele tinha percebido isso. Então passou os últimos dias ensaiando o diálogo e, principalmente, escolhendo o ritmo certo das palavras. Ele adora subjetividade. Queria falar tudo, mas de um jeito que ela pudesse interpretar à sua maneira também.

Mas ela ouviu sem uma lágrima nos olhos. Continuou com a boca cerrada, sem tristeza ou surpresa, balançando a cabeça devagar. E na expressão dela, o que se via é que ela já sabia de tudo aquilo e, na verdade, olhava como que esperando pela conclusão do assunto.

Ele ficou desconcertado.
E mesmo assim nunca percebeu que ele era bossa nova e ela heavy metal.




segunda-feira, 23 de novembro de 2009

tudo não diz nada (ou nas páginas do meu caderno)

Sobre os nossos encontros, que têm data e hora marcadas e dia certo para terminar. Contagem regressiva agora que aprendi a prender sua atenção.
Você senta e não diz nada, não desvia o olhar do vazio e alegra minha semana.
A única coisa que eu posso olhar sem medo é o seu pé, que você deixa esticado como se estivesse confortável, mesmo sua respiração dizendo o contrário.
Eu suspiro e a gente permanece em silêncio. E mesmo com tudo acontecendo em volta, é no seu suspiro que eu estou pensando.
Quando o silêncio é interrompido por perguntas, você finge que nada aconteceu e nós dois não respondemos nada.
Sem olhar, eu fico tentando decifrar o que você está fazendo, onde estão de verdade seus pensamentos, porque eu não os vejo por aqui.
Eu tento te tocar algumas vezes, mas talvez seja sutil demais, porque você nem percebe o meu esforço.
Quando é hora, você tem vergonha de rir. E eu, com pudor, olho seus olhos sorrindo. Mas seu pensamento logo se desvia mais uma vez. Eu vejo seus cílios quando não resisto e, desta vez sem timidez, tento enxergar você.
Eu me levanto e você fica sentado, não quer que eu te acompanhe. Eu não sei o que você fez antes do nosso encontro, e não sei o que vai encontrar depois.
Sua presença no meu mundo se limita a essas horas que ficamos lado a lado em silêncio. E a minha presença no seu... bom, eu não sei se você está realmente comigo nessa hora.
Um dia, você deixou – mais por descuido do que por insistência minha – que eu descobrisse parte do seu caminho. Mas você – não sei se por insistência sua ou se porque é assim mesmo – se desviou.
Continuo contando as horas para amanhã.

E se eu não olhasse mais na mesma direção? E se eu desligasse a música? E se eu decidisse voltar a pé? E se eu dormisse a tarde toda? Se eu não tomasse mais nenhuma tequila? E se eu gritasse até você me ouvir? E se eu desse as costas e fosse embora? E se eu acendesse seu cigarro e o apagasse na palma da sua mão? E se eu te beijasse aqui, sem testemunhas? E se eu dançasse até meus joelhos doerem? E se eu te dissesse que esse bigode te cai mesmo muito bem? E se eu te desse um cacho de uvas podres? Se eu desarrumasse a cama, tirasse os lençóis? Se eu jogasse todas as suas roupas no chão, quebrasse alguns copos, destruísse toda essa ordem? E se eu pedisse explicações? E se eu não desse explicações? E se eu acordasse os vizinhos? E se eu te dissesse que eu não me importo e que sim, continuo muito bem sem você? E se eu te dissesse que foi tudo mentira? E se eu não risse das suas piadas e te servisse o café da manhã? E se eu buscasse suas roupas na lavanderia e brincasse de ser sua mulher? E se eu arranhasse os seus discos? Se eu rasgasse suas fotos? E se eu contasse para o porteiro o que você faz durante a noite? E se eu guardasse pra sempre os gemidinhos que você dá enquanto dorme? Se eu apagasse da minha memória o sorriso que você dá quando sonha? E se eu te chamasse por aquele apelido ridículo que seus amigos inventaram? E se eu nunca mais respondesse ao apelido que você inventou? E se eu confessasse que acho seus poemas muito ruins? E se eu confessasse que acho a sua voz ao telefone a melhor melodia do mundo? E se eu concordasse com o que você está falando? E se eu te amasse, você ainda estaria aqui?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

“O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que a gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse.”