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quarta-feira, 5 de maio de 2010

mais do mesmo (ou expedição sobre você)

Você nunca se aproxima e de longe me olha como se pudesse dizer exatamente o que estou pensando. Nossos olhares não parecem tão distantes – e eu nem tinha notado que foi a distância que nos aproximou tanto mais. As pessoas passavam entre nós e a apenas alguns passos, você deixou que elas escondessem o nosso caminho.
Esse é o seu jeito de dizer que temos todo o tempo do mundo.
Elas passam e nós continuamos parados.
Naquela aula de literatura nós ouvimos sobre alguns poetas e você me passou discretamente uma folha rasgada com um poema que tinha acabado de fazer. Nele, estava escrito o que eu estava pensando. Você sorriu porque também sabia o que eu falaria sobre ele. Por um segundo, fiquei preocupada achando que já sou tão óbvia pra você, e que é assim que as coisas terminam. E aí você sorriu dizendo que isso é só o começo (você insiste no começo e eu insisto que não tem dessa de pra sempre e você se diverte com extremos e com planos pra semana que vem)

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Então é assim que as coisas começam, nós dois inseguros, a distância que já se estabeleceu e a sua presença cada vez mais rarefeita. No seu sorriso, de longe, eu reconheço a melancolia de quem se isola do mundo de propósito, flanêur de uma vida que você ama sem nem saber ao certo qual é. Você abaixa os olhos e volta à sua leitura, e eu daqui vejo a sua distração, os olhos, no escuro, fingindo percorrer as linhas sem nunca virar as páginas. Mais uma vez, seu pensamento não acompanha o seu corpo. A sua inaptidão é tão aparente que até engana que você tem alguma certeza. Mas a sua voz quase não sai. E enquanto a maioria não presta atenção, eu imagino a ebulição dentro da sua cabeça sem conseguir nem adivinhar por onde caminha seu coração. Porque sua presença me deixa assim cafona, pensando  naqueles momentos que a gente divide e que você tem tão pouco a dizer sobre tudo aquilo que eu quero ouvir, mas nunca pergunto. Quando forço a aproximação e avanço com perguntas, você começa a falar sem parar sobre a única coisa que eu já sei. Aqui eu fico tentando adivinhar as músicas que grudam na sua cabeça e quais os versos que você marca com um lápis. Onde você quer deixar marcas? Não sei o que te define, além da distância que você quer manter de mim e do resto do mundo. E ai eu sempre penso sobre o final de tudo, que nós declaramos tão longe, apesar de o presente não fazer mais parte dos nossos planos. Hoje eu resolvi parar na sua frente e dizer tudo isso, dizer que hoje é só o começo, que o que a gente tem de tão diferente é o que nos une, porque encontramos um no outro o espaço que a gente precisava para ser o que quiser, pela primeira vez. E aí quando você sorriu, eu não disse nada. Porque nem foi preciso.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Eu te acompanharia, meu amor, mas não estou mais aqui

Reclamo do cheiro de cigarro na sua roupa, de você ter opinião sobre tudo e de ouvir atentamente o que eu tenho a dizer. Sozinha, reclamo da falta que você faz quando está aqui, dono da sua presença distante. Mais tarde, conto pras minhas amigas o quanto sua voz me ensurdece e o quanto a sua simpatia é irritante. Não as engano mais do que a mim mesma. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

vapor d'água

Na manhã seguinte eu acordo primeiro, mas fico deitada ao seu lado, com preguiça de sair da cama. Ta calor demais, o quarto ta bastante claro, mas ainda to com uma ressaquinha daquela caminhada noturna. Você acorda, mal me dá bom dia com hálito de sono e já retoma a conversa da noite anterior. Uau, como você gosta de falar.
Abro a janela e o sol ta bem alto lá fora, o céu ta bonito com algumas nuvens, mas a gente ainda prefere ficar vendo tudo isso daqui de dentro. A gente sabe bem como o mundo é diferente fora do quarto.
A gente continua dando risada por pouco, conversa sobre as bobeiras que vão cercando sem pedir licença e quando a gente cai, sem querer, no assunto proibido das mudanças, você fica em silêncio por um segundo olhando as nuvens pela janela. Eu olho pra mesma direção que você, sentindo minha cabeça subir e descer, encostada no seu peito, no ritmo da sua respiração. E antes que tudo fique silencioso demais, você inventa uma música boba sobre mudanças e nuvens passando. Eu invento o refrão e você ri da minha voz, diz que eu não sei cantar. E eu canto ainda mais alto pra te provar que faço qualquer coisa bem.
E só quando a gente não aguenta mais de fome é que você prepara aquele macarrão que já é um clássico entre nós, principalmente porque você erra a receita. Dessa vez você acerta o molho e no resto do dia eu ouço observações sobre as suas habilidades culinárias e do quanto a prática leva à perfeição. Você diz que tem treinado na preparação desse molho e eu, por algum tempo, esqueço desse acordo de que tudo se resume ao que somos e fico imaginando você cozinhando.
Voltamos à nossa brincadeira antiga de procurar bandas bizarras no Soulseek. Neste dia encontramos a nossa preferida de todos os tempos. Aqueles riffs que virariam mais uma de nossas lendas e a base pra música que a gente fez de manhã.
O sol já está mais baixo, nem está mais tanto calor, e a gente continua rindo à toa. Seus braços continuam quentes e a sua pele ainda ta cheirosa. Então a gente se prepara pra sair, agora já escureceu totalmente, e você dá opiniões sobre meu cabelo, meus sapatos e até minha maquiagem e eu faço tudo ao contrário do que você sugere. Parte pra te provocar e parte pra te fazer provar que acha mesmo que sou bonita de qualquer jeito.
À noite o universo não somos nós dois: minhas amigas, seus amigos, a cerveja, a tequila, a mesma balada que íamos sozinhos, a luz piscando, a música, as meninas passando, os caras passando, o dj, os cartazes, a fila do banheiro e nós dois.
De manhazinha paramos todos na padaria e assim, sentada de frente pra você, eu vejo como seus olhos ficam ainda mais bonitos de manhã, com uma luz ainda meio alaranjada e um pouco de lágrimas de ressaca. Você ta descabelado e me dá um sorrisinho de boca fechada e uma piscadela de cumplicidade.
A gente chega tão cansado que dorme com tanto calor e sem tomar banho. A sua respiração embalando meu sono. É tão bom acordar no fim da tarde e você já está acordado, me abraçando e lendo o livro que deixei ao lado da cama na sexta-feira. Eu abro os olhos e você está com aquele olhar de concentração, a boca um pouco aberta e eu te abraço tão forte, será que suas costelas vão estalar?
Você sorri, comentamos sobre o livro e a conversa chega à sessão de fotos, à viagem cancelada e, pela primeira vez, terminamos a conversa com aquele já velho conhecido “é, você tem razão”, “sim, eu sei”, “melhor assim”, “que bom”. O jogo na tv já está acabando e o nosso time perdendo mais uma vez.
Então a gente toma banho, come pizza com cerveja, as crianças gritam e correm pela pizzaria, a gente faz mais um passeio noturno e não rimos tanto quanto no dia anterior. Você me paga um sorvete, faz galanteios adolescentes, me olha assim meio de lado, imita meu ex-namorado, e a gente lembra do dia em que se conheceu, repete diálogos, ri das loucurinhas que cometemos e, como naquele dia, saímos correndo de mãos dadas, não olhamos pra trás, paramos ofegantes e então lembramos do seu olho roxo.
Na volta pra casa já está mais fresco, sua camiseta branca tem um furo no ombro. Meus braços dão a volta em você todo, seu cheiro é assim bom o tempo todo. Você me olha nos olhos e eu sei que é domingo à noite.
Depois das músicas, respirações e segundos de silêncio, a gente dorme abraçado mais uma vez e quando eu acordo, segunda-feira, você já foi embora. Não podemos contar um com o outro durante a semana.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

tudo não diz nada (ou nas páginas do meu caderno)

Sobre os nossos encontros, que têm data e hora marcadas e dia certo para terminar. Contagem regressiva agora que aprendi a prender sua atenção.
Você senta e não diz nada, não desvia o olhar do vazio e alegra minha semana.
A única coisa que eu posso olhar sem medo é o seu pé, que você deixa esticado como se estivesse confortável, mesmo sua respiração dizendo o contrário.
Eu suspiro e a gente permanece em silêncio. E mesmo com tudo acontecendo em volta, é no seu suspiro que eu estou pensando.
Quando o silêncio é interrompido por perguntas, você finge que nada aconteceu e nós dois não respondemos nada.
Sem olhar, eu fico tentando decifrar o que você está fazendo, onde estão de verdade seus pensamentos, porque eu não os vejo por aqui.
Eu tento te tocar algumas vezes, mas talvez seja sutil demais, porque você nem percebe o meu esforço.
Quando é hora, você tem vergonha de rir. E eu, com pudor, olho seus olhos sorrindo. Mas seu pensamento logo se desvia mais uma vez. Eu vejo seus cílios quando não resisto e, desta vez sem timidez, tento enxergar você.
Eu me levanto e você fica sentado, não quer que eu te acompanhe. Eu não sei o que você fez antes do nosso encontro, e não sei o que vai encontrar depois.
Sua presença no meu mundo se limita a essas horas que ficamos lado a lado em silêncio. E a minha presença no seu... bom, eu não sei se você está realmente comigo nessa hora.
Um dia, você deixou – mais por descuido do que por insistência minha – que eu descobrisse parte do seu caminho. Mas você – não sei se por insistência sua ou se porque é assim mesmo – se desviou.
Continuo contando as horas para amanhã.