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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

dia dos mortos


O sol queimando sem ser interrompido por nenhuma nuvem ou sombra. Abafado. Quente, o concreto ainda mais quente, queimando e refletindo o calor que absorveu.
Flores de plástico irradiam um brilho fosco, artificial e, ironicamente, morto. As flores vivas, murchas, se dobram ao sol e ao silêncio.
No calor, tudo fica em câmera lenta. Pensamentos e pessoas passam devagar. Só se fala baixo em cemitérios. Não há água, sombra ou escapatória.
De frente a fotos – registros de momentos que hoje estão na memória dos poucos que choram – as pessoas se ajoelham, em respeito a sabe-se lá o que. Talvez ao desconhecido. Debaixo do sol queimando e diante de fotos 3x4 as pessoas fazem silêncio. Durante alguns segundos, pensam no passado bom (mesmo que momentos breves), nas coisas que deveriam ter sido diferentes, no que a gente espera que aconteça depois. Na verdade, ninguém sabe muito bem o que pensa: neste calor e de frente a uma lápide.
Agachados, com o suor escorrendo no rosto, o barulho de um fósforo riscando e acendendo a vela. O vento não refresca, mas apaga a chama várias vezes.

domingo, 18 de outubro de 2009

nos tempos de algodão doce

Estava brincando com os primos que não via há tempos, na casa do meu bisavô, e um deles (uns dois anos mais velho) me chamou para ir com ele no fliperama e tomar sorvete. Só nós dois.
Era um sábado à tarde, no verão. Deveria ser fim de 1991 ou 1992.
Eu, com a tiara inseparável e chinelos, andava orgulhosa pelas ruas do centro. Ele nem percebia a minha timidez (se percebesse, provavelmente nem entenderia o motivo).
Eu nunca gostei de videogames, mas ri muito da sua cara de concentração, as expressões de raiva e susto e o jeito que se jogava pra frente ou pro lado enquanto ia batendo nos botões.
Não lembro o que a gente conversou na sorveteria. Sobre o que crianças conversam entre si? Só lembro que me sentia muito adulta de estar na sorveteria sozinha (e com um menino). E que depois a gente voltou e continuou brincando com os outros. Mas eu sentia uma cumplicidade de alguma coisa que seria sempre só entre a gente, sabe.