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terça-feira, 23 de março de 2010

Nela a grande pergunta me envolvia: vale a pena? Não sei, disse-lhe minha quietude cada vez maior, mas é assim. Ali, diante do meu silêncio, ela estava se dando ao processo, e se me perguntava a grande pergunta, tinha que ficar sem resposta. Tinha que se dar - por nada. Teria que ser. E por nada. Ela se agarrava em si, não querendo. Mas eu esperava. Eu sabia que nós somos aquilo que tem de acontecer. E só podia servir-lhe a ela de silêncio.

Clarice Lispector - A Legião Estrangeira

quarta-feira, 10 de março de 2010

depois do meio-dia

Expectativa alta, quase sonora, perguntas sem resposta, uma rosa tatuada. Um botão de flor murcho, que ainda tem cheiro. O branco já ficou amarelado, as pétalas estão secando. Em cima da mesa só o pó e o livro aberto. Não está na página marcada, o vento folheou e hoje nada mais faz sentido.  Assim tudo parado, a gente tenta achar poesia... Diz que falta o som de um piano – mas tem um rádio ligado. “Recados do coração”. Poeminhas piegas “de alguém que te ama tanto...” e começa a música tão brega, ele chorando por um amor que foi embora. Aqui, eu acabo de sair do banho, ainda escorrendo água do cabelo pelas costas, cheiro de hidratante. Ouço as buzinas na rua (o trânsito ta parado), mas não presto atenção no rádio. A empregada cantarola a música enquanto termina de lavar a louça: dois pratos, duas taças e o cinzeiro cheio.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

olhar que adivinha

"Não me refiro ao olhar apaixonado. Falo de algo além,
o olhar que paralisa o outro. Que se apavora de adivinhar-se, possivelmente feliz, e se descobre em profundidade
e espanto no
poço do outro, no fundo do qual mora uma certeza nunca antes
confirmada."


Artur da Távola